четверг, июня 30, 2005

isso

agora levanta-te
abre os olhos
mais
ainda mais
assim não, menos
isso.

inspira
veste-te
o vestido azul não

liga o carro
entrega o filho
( o filho do meio )
agora fica órfã
isso.

estás atrasada
corre, vai
lava os sovacos
e casa-te
isso

fica triste
mais,
mais um bocado
calma, já chega.
isso.

schhhhhh

agora morre,
agora.
muito bem.
isso.

среда, июня 29, 2005

não quero que o texto seja confortável, que andes comigo no teu bolso, que rias para as palavras que me custaram os pulsos. não quero ter sexo com a primeira, nem com a segunda frase. repara bem, não é estilo, é uma maneira imperfeita de adiar a morte. sim. eu sei que te assusto, isso é a melhor parte. não suporto fraquezas, se vejo alguém a quebrar vou lá e dou uma ajudinha.
muitas vezes precisei de ficar no chão, suja, imunda, a cheirar mal, só para depois não suportar mais e sair de casa. por isso repara, este texto não serve para sublinhar, não serve para andar no teu bolso. este texto sou eu, inútil, sem posição e a cheirar mal.
passei a manhã a pagar contas. sou um cidadão exemplar e um poeta na merda.

понедельник, июня 20, 2005

optimismo

perdi tempo
e um guarda-chuva
tu chegaste depois
2 horas e 37 minutos depois

telefonaste.

sim?
cheguei...
agora?
estava trânsito...desculpa.
podias ter avisado.
pois era...

perdi tempo
e um guarda-chuva
mas ganhei um amor atrasado.

пятница, июня 17, 2005

o que se faz aqui em paris? assim, uma pergunta que mais ninguém faria, só tu. ok, dizes, com muita fleuma, a fazer de conta que és outra coisa. sento-me no café e penso: acho que te vou escrever sempre, e sempre para ti,mesmo estes postais pirosos, de lugares que têm sempre legenda e muito photoshop. mesmo quando me rir para outros rostos e apertar mãos que não sabem nada de ti, nem de nós, vais ser sempre tu.
o sartre andou por aqui. talvez nesta mesa em que me sentei para conhecer de perto o meu corpo a beber um café que não me apetece.ou ali mesmo ao lado, um homem fuma devagar, o seu nome deve ser parecido com o teu, penso, talvez se o chamasse, dissesse murmurando o teu nome ele se virasse. talvez tu sejas melhor se fores a fingir.
somos um segredo, eu e tu, e é isso que não sei cansar. não sei cansar-me da festa que era quando vinhas, das noites que de repente eram um só palmo, de ser muito maior que todas as sombras.
posso caminhar por estes lugares onde nunca antes te vi e isso ser irrelevante. a cada rosto, rotina ou ponte és tu. tu a caminhar pela rua, la houchete abaixo, quase metafísico. tu a subir até aos lábios um cigarro quente. tu a ler no metro, a descer em saint-michel para nunca mais te ver na vida. tu, o americano chato que pede vinho. tu a criança que correu muito, fugindo ao sinal vermelho. tu este dia, este je suis desolée, este vento que aqui não sopra.
há muitos espelhos aqui e todos me repetem: o rosto é a primeira paisagem por onde seguimos sós.
talvez se fosse outro lugar, talvez se houvesse anjos e não perfume por todo o lado, talvez se fosse menos bonito olhar o outro lado e do outro lado ainda ser paris, talvez chegar e recomeçar a perda, outra vez, desta vez acerto, perco-te todo.
só tu me dirias, o que se faz aqui em paris?, se estivesses por perto, ao meu lado , a transpirar em conjunto a tarde quente de junho pela boulevard saint-germain.tantas louras, indo e vindo, sapatinhos delicados, tudo certo, bon chich, bon genre, bcbg, aqui toda a gente sabe isso, mas tu não. e achas o sartre um chato, ias olhar a minha marguerite sobre a mesa e sorrir, distante, que mania a dela, pensarias, estes tipos todos, o saco dos livros, isto tudo , esta gente, onde estamos afinal, o que se faz aqui em paris? eu a fugir de mim, aposto que quando voltar aprendo, vou perder-te inteirinho, desta vez é que é.
aqui em paris? aqui em paris, sentamo-nos no café, abrimos o livro e fazemos de conta que já passou.

вторник, июня 14, 2005

para f.

porque talvez coisa nenhuma
cidades todas iguais repetem o meu tédio
porque só talvez tu
aqui dentro de mim
já tão perto de ser noite
porque talvez tenhas versos que não ouço
ou o mundo esteja aqui por conveniência
porque talvez eu diga isto
para não fazer nada
nem dormir, nem morrer
apenas passar pelo meio de mim
esperar que o tempo seja pouco
e as mãos muitas
que as ruas se abram e tu estejas por perto
onde eu sou inútil
e este nada contornado de ossos
porque talvez só tu onde eu não posso me digas adeus a cantar
e cantando se desenha e ama o teu rosto
porque talvez eu diga isto como quem pede
como quem chegou a casa e esperou muitos anos
abriu livros, estudou mapas, abriu sorrisos
outros sorrisos, imperfeitos, inúteis
porque talvez só tu ainda sorrias este dia acaba
esta mão fecha-se
porque talvez não possa haver pedra
onde houve o teu beijo .

вторник, июня 07, 2005

sou este guindaste no meio da obra quando a obra fica sem ninguém
e os carrinhos dos varredores ao meio-dia quando a sua passagem lembra
um quase funeral com quase gente
triste consolação de morrer aos bocadinhos, ao meio-dia,
como quem esquece que um dia é que é
flores e missa e nós sem rumo
sou este pão amolecido que as tuas mãos levam à boca
a vida ao canto da boca, à espera que lhe digam bom dia, passa bem
enquanto vamos indo somos a guerra de ter mãos que transpiram
que trazem barcos e dizem adeus, mãos brancas a enganar a cor do medo
avisto as tuas mãos com sono, paradas, é meio-dia, ninguém se levanta
está tudo contra nós, este poço onde sopra o teu nome
esta sombra onde canto para ter morada
isto aqui, este mau hálito de ter nomes para dizer e ninguém a chegar
onde ficaram meus sete reinos, minhas sete mulheres,
minhas horas de sol maior ?
era tudo tão perto de nós , as rosas que só eram rosas nos teus dedos,
o trigo que era trigo no teu corpo, e só nele,
era o mar, o mar todo, inteiro só de o dizer,
mar, a boca toda azul, o rosto todo de sal, o coração todo de horizonte
e nós a maré, o pescador deitado por dentro do santo,
o barco no osso que abraçava o mundo
se ainda fosse assim e não este jornal velho
esta vida repetida, este meio-dia de obras paradas e rosas de plástico
se ainda houvesse cartas por escrever, e já não há,
se fosse por aqui que te encontrasse e não é
se esta hora fosse só um meio-dia e não a vida inteira
a empurrar-nos, a dar o sinal horário, a atravessar crianças para a escola
e adultos para o lixo , se , fica-me tão bem o se, a mim que digo que quero ir
e sempre fico, entalada em tantos se que me esqueci como é levantar da cama
é ainda este meio - dia parado e não há como enganar a boca:
os meus nomes sujaram a terra.

index

no rol de audições proibidas: rosie thomas.
é muito inconveniente deixarmos a autobiografia censurar-nos a arte.
há músicas proibidas. rosie thomas entrou na categoria, implacavelmente.

понедельник, июня 06, 2005

porque passou um comboio dos que tu gostavas e por me lembrar de ti apeteceu-me abraçar-te como se toda a vida tivesse sido assim. antes e depois não haver.

воскресенье, июня 05, 2005

sala velha.acordei com uma missão: errar a manhã, o dia, sentir pena de mim e dizer que não adiantou de nada, continuo sem saber nada, continuo a dizer alto o meu nome sem saber o que é isto que procuro ser.

acordei para dizer que não, que não ia ter contigo. tenho as palavras todas erradas, como saber dizer-te alguma coisa?
as palavras estão trocadas comigo, eu com elas, tudo ao mesmo tempo. ontem eu sabia tudo. ontem eu era crescida e não precisava de mais nada. hoje acordei outra vez do avesso, o caminho mais importante está sempre vazio, isto não devia ter sido assim, tu não devias ter aparecido, tu devias ter aparecido , eu é que não devia ter ido ter contigo.

preciso olhar o teu rosto antigo, olhá-lo para ter a certeza que um dia fui outra pessoa qualquer. alguém à procura do trânsito para um sorriso alheio, alguém a quem bastava saber o teu nome .

diz que vens, um dia, que me salvas destas hpras em que caminho funcional, achando que a solidão basta. diz que vens ainda fazer-me crer no que já não creio , como esta coisa de sermos salvos ou haver no mundo lugar onde a mentira seja tão certa que pareça a felicidade.

diz que sabes tudo, não preciso dizer nada, mostrar-te o caminho, levar-te pela mão, vês, aqui dói, aqui não, podes entrar com a tua festa e a tua sombra.
podes dizer que também não sabes de nada, somos tão estrangeiros, mas não faz mal, muito perto de ti é um caminho imenso.

um dia, a vida, um livro ,mais umas quantas merdas meio e concluímos: deixaram-nos tão sós que desaprendemos o amor.
obrigada a todos.