понедельник, октября 31, 2005

olha como somos tão melhores ontem, olha como já passámos de moda, roupa cansada, esta roupa cansada vestida, despida, encenada, esta roupa cansada----------- a nossa pele, as nossas mãos a transpirarem tanta solidão que é como ir pelo caminho errado e só parar na infância: estamos grandes demais no único lugar onde ainda podíamos ser cobardes. não me apontes a faca ainda. esta ideia de morte sempre diante dos olhos. os meus sovacos também, os meus sovacos cheiram à minha morte. que aconteceu à nossa festa, ao dizer que estava frio ser mentira só para ficar mais perto, a vida toda à procura disto, deste estar tão inanimadamente feliz, mas é isto que temos, é só isto? o silêncio duma morte sem batalha, dum céu sempre a chover, ah, se tu ouvisses como chove, chove, chove tanto dentro dos meus olhos, chove muito para dentro e eu encharcada e sem casa sem destino, assim, só isto, a roupa cansada, as frases todas feitas e o sorriso eternamente sem destinatário. que aconteceu que já foi mais fácil? podia ser para estar perdido, enganado, podia ser até alguma coisa parecida com a maldade, uma vontade de te fazer muito mal porque sabíamos, isto que eu já fui e tu já soubeste, sabíamos que antes de doer eu calava tudo e os espelhos voltavam a ser só espelhos e as casas onde dormíamos apenas casas.
sei todos os teus gestos, vais acordar e acender todas as luzes, renegar a escuridão tão teimosamente que só me resta fazer de conta que ainda sei como é o teu lado.
esta roupa cansada vestida, despida, encenada, esta roupa cansada, o cheiro da morte nos meus sovacos, eu à espera que me mates, e tu só à espera de me voltar a ver.