вторник, июня 07, 2005

sou este guindaste no meio da obra quando a obra fica sem ninguém
e os carrinhos dos varredores ao meio-dia quando a sua passagem lembra
um quase funeral com quase gente
triste consolação de morrer aos bocadinhos, ao meio-dia,
como quem esquece que um dia é que é
flores e missa e nós sem rumo
sou este pão amolecido que as tuas mãos levam à boca
a vida ao canto da boca, à espera que lhe digam bom dia, passa bem
enquanto vamos indo somos a guerra de ter mãos que transpiram
que trazem barcos e dizem adeus, mãos brancas a enganar a cor do medo
avisto as tuas mãos com sono, paradas, é meio-dia, ninguém se levanta
está tudo contra nós, este poço onde sopra o teu nome
esta sombra onde canto para ter morada
isto aqui, este mau hálito de ter nomes para dizer e ninguém a chegar
onde ficaram meus sete reinos, minhas sete mulheres,
minhas horas de sol maior ?
era tudo tão perto de nós , as rosas que só eram rosas nos teus dedos,
o trigo que era trigo no teu corpo, e só nele,
era o mar, o mar todo, inteiro só de o dizer,
mar, a boca toda azul, o rosto todo de sal, o coração todo de horizonte
e nós a maré, o pescador deitado por dentro do santo,
o barco no osso que abraçava o mundo
se ainda fosse assim e não este jornal velho
esta vida repetida, este meio-dia de obras paradas e rosas de plástico
se ainda houvesse cartas por escrever, e já não há,
se fosse por aqui que te encontrasse e não é
se esta hora fosse só um meio-dia e não a vida inteira
a empurrar-nos, a dar o sinal horário, a atravessar crianças para a escola
e adultos para o lixo , se , fica-me tão bem o se, a mim que digo que quero ir
e sempre fico, entalada em tantos se que me esqueci como é levantar da cama
é ainda este meio - dia parado e não há como enganar a boca:
os meus nomes sujaram a terra.