среда, мая 04, 2005

complicaram-nos a vida quando deixámos de ser os dois amantes, nus, atirados para cima da cama por um deus que não víamos.
um dia sobrou tempo , um dia tudo ficou imenso e eram já muitos meses desde que te tinha visto a última vez.
ainda ontem aqui estavas, as mãos apertadas, o meu seio a doer-me e tu ainda, eu ainda, nós sem saber nada, a enganar a morte, para sempre vivos,o mais perto de ti era eu .
um dia o mundo cansou-se de nós, abriu-se, e foi parir outros amantes,talvez mais tristes,menos perfeitos.
nunca te chamei meu amor, nunca disse que a tua boca era o primeiro mundo e o segundo e depois dela havia que repetir na minha todo o teu corpo.nem nunca fiquei à espera que viesses, aconteceste em mim, onde eu não via, onde tudo é o que sempre fui,corpo isento de finitude,cheiro,pele,o teu sexo.
deixámos de ser amantes, deixámo-nos incompletos,dor imensa na ausência,rosto,boca,nomes a fecharem-se , a pedirem abrigo, a solidão de ti a ser como os continentes .
um dia,anos depois,amanhã, cumpriremos o que foi feito: voltaremos, amantes que fomos da criação, para oferecer aos deuses a memória da nossa carne .